quinta-feira, 16 de junho de 2016

recordações da cabine telefônica


ocorreu-me de pensar que ainda somos, no essencial
a semana passando num piscar de olhos
o deslumbramento de quem descobriu
um poema musicado da Hilda Hilst
sonhos adestrando as malas
embalando somente
o necessário
e sobretudo
à primeira vista, em frente aos novos inquilinos
somos roupas de dormir
com cheiro de café
sem qualquer embaraço
fazendo as compras do dia
pedalando pela calçada são tomás de aquino
carregando açúcar mascavo em sacolas de papel
rabiscando fileiras de cabines telefônicas
parando nos sebos e brechós
somos um lugar seguro
que rumoreja reiteradas vezes
que o lugar mais seguro do mundo
é um gênero literário que nem de longe se deixa prescrever
porque seu cheiro masca hortelã e usa sandálias de dedo na feira 



by: claudio castoriadis 
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quinta-feira, 2 de junho de 2016

poucos conhecidos resumindo uma vida inteira em poucas palavras


uma vida inteira resumida em poucas palavras com uma vizinhança de poucas palavras não mais que isso com poucas palavras na falta de assunto no ponto de ônibus na demora no ponto de ônibus com poucos cigarros com pouca iluminação com pouca segurança com poucas pessoas com poucos assentos com poucos olhares com pouco assunto com (poucos conhecidos resumindo uma vida inteira em poucas palavras




by: claudio castoriadis
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quarta-feira, 25 de maio de 2016

quinta-feira, 28 de abril de 2016

respirando sem a ajuda de passageiros


foi quando ele deu de ombros e disse -
que tinha uma arma -
que na verdade não era bem uma arma -
era -
outra coisa qualquer de fabricação caseira -
uma não arma -
parecida com uma arma -
quando ele deu de ombros dizendo que tinha uma arma -




by: claudio castoriadis
imagem: fonte web

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

eu não tenho um alicate de unha


duas enfermeiras colocam a conversa em dia num quarto de hospital
uma delas pergunta pelo alicate de unha
enquanto a outra
troca as flores murchas do jarro
colado à janela
com precisão cirúrgica de um açougueiro
entre elas
uma cama aparelhada semelhante a uma ratoeira
embrulha um velhinho todo arrebentado
em posição fatigante de barriga para baixo
o velhinho todo arrebentado vira o rosto
encara as duas enfermeiras com seu melhor sorriso
agradece pelo jarro
agradece pela flor no jarro colado à janela
e se desculpa por não ter um alicate de unha 

by: claudio castoriadis
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sábado, 17 de outubro de 2015

a insegurança na forma mais transparente da fala


sei que alguém já disse isso, ou algo parecido, sobre o medo do escuro
mas deixa eu falar
quem tem medo do escuro nada tem no colo
ou
nada tem que lhe sirva de consolo
cobertor, calor materno
é a insegurança na forma mais transparente da fala| voz que assusta na sua ausência de lugar, útero|
é assim que zumbe
o vidro inconsciente
quem tem medo do escuro na verdade sente falta de alguém que não seja ele mesmo

by claudio castoriadis
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sábado, 10 de outubro de 2015

o que vejo no olhar do Ian Curtis


1
um sistema nervoso germinado por milhares de fatores internos*
usineiros liberando órgãos delinquentes em volta da barraquinha de cigarros do tio wallace

*explosões, fenômenos gélidos &
variações climáticas do antigo testamento hebraico |?|

2
um corpo de mosca com cabeça de peixe perfurado por um tugúrio de tinta

3
revistinhas, tampinhas, uma máscara de gás soviética, caixas de lata, pilhas de rádio e uma porção de prédios congelados

4
a inteira presença da falta do sentimento de ausência naquilo que foi dito

5
o temor animal da literatura depravada alojando convulsões no ângulo da refração absurdamente indescritível

6
poesia
patinando metáforas entre outras
metáforas| confluências orgânicas desabando mais do que escrevendo|



by : claudio castoriadis
imagem: Ian Curtis. font web

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

você pode desenhar um poema bonito


você pode carregar uma geleira com seu trenó de esquimó? e
este uniforme de esquimó?!


você é este grão de neve imóvel neste nesgo de terra informe
cortado por navios quebra-gelo ( prédios barrocos
turistas, catedrais e quirinais)

você pode escrever sobre o gosto da neve
que tem gosto branco leve

você pode desenhar
um poema bonito
rimando gosto
com leve


claudio castoriadis
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.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

berinjela com geada


I

o floco dispara uma cor no meu quarto

no peito aberto um tiro congela roupa

entre os dentes aparelhados sou hálito
   
tangido pela sede enfastiada em saliva


II

crianças ocupam o asfalto empoçado

o dia tem gosto de janela com geada


III

observo coisas que ainda não existem

assim picoto o tempo corado de neon

o inverno cospe uma geladeira por dia

e por dia bordo uma berinjela congelada



by claudio castoriadis
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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

notas para uma caixa registradora



III


       [quem sou eu? escrevia ela
          quando lembrava de mim
               
                      [quem era você?
pensava eu
como uma barrinha
de cereal repartida

- e se o passado for isso? partido
e repartido?

partindo daquela prateleira
com mostruários
de
cartões postais e
                 marcadores de livros
com as iniciais 9 ¾ da estação thin lizzy?  



by: claudio castoriadis
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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

meu documentário não autorizado pelo morrisey


 disparo em volta de alteneiras
      fremindo todos os círculos
         amainando meus cachos
                             insuflados

de costas para uma janela
sob o cortinado
que recorta o firmamento
das torres telefônicas

desconfio 
dessas coisas 
nada sei da geologia
dos toldos e balcões ulcerados 
dessa gente que se acha connor macleod
do baloçar em cada esquina
das figuras midianitas
das vielas urinadas
das latrinas

por isso, talvez
deixo suturas estarradas na porta


longas são as noites naquele borrão
   sempre estridulando woody allen
          a roda púrpura do cairo

é assim que me vejo
esmurrando
raias da galhofice
repetindo annie
naquela festa 
neurótica
com imensos bigodes 
com formas jocojas
sobrepujando
(aparentemente
pelo menos)
        meu documentário
não autorizado pelo morrisey
    nas estrofes espessas

&

trechos nacarados
deserto
inseto
certo
chorando
pelo avesso
da gruta lascux
digerindo
interpenetrações 
destrinçando envilecimentos 

(ele não entrou 
em nada
tecnicamente
nada sobrou dele)

.

retiro a baixa temperatura 
incendiando mouriscos 
com gasolina

por ensejo da gravidade 
quem sabe, glândulas
c/
estrídulo 
incandescente 
entre meus dentes 
uma pálida herbicida 


alto no ar
toco no clarim
e o andaime desaba
sem encontrar estadia

vergasto veias do libérrimo
visto meu estômago revirado

   (casos em que uma coisa 
         segue-se a outra)

               numa fresta 
      molduras vaticinadas 
improvisam
sifonias de chaleiras 
com som zimbro
monotônico

astucci
no entardecer 
um poema
de ezra pound
alícios
escarpas em curvas 
rambras poucas vezes vistas 

não entendo
dos quirinais lívidos
dos sibilantes fora de frequência
da educação sentimental do jovem flaubert
dos peixes arrastando o lustro de lentilhas
na dúvida não olho com cílios
não há ninguém fluindo
não deixo o vento mergulhar 
um gole d'água sequer na forja 

by claudio castoriadis
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[Publicado originalmente: http://www.germinaliteratura.com.br/ ]

terça-feira, 25 de agosto de 2015

AllanStewartKönigsberg

















sou grato pela minha estupidez
plantada num bornal de balas
neste peito barrento
cheio de panelas
batendo planuras
sem menção
esmola
ou
caridade


[(...)]



by claudio castoriadis
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domingo, 23 de agosto de 2015

eu todo mundo


eu não queria que todo mundo pensasse que eu
era o que eu não sabia que todo mundo queria
que eu pensasse que todo mundo sabia que eu
era o que eu não sabia que eu queria era que
todo mundo pensasse que eu era todo mundo

Arnaldo Antunes

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

ainda sobre a caixa registradora*




velho
seu nome tem cara de vinte cinco
                                      de maio
























(...)

by: claudio castoriadis 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

caixa registradora com poucas linhas de diálogos*


da grama
o velho parnasiano fala da gramática

             fala da palavra enforcada na
                                        [gramática

fala da redondilha removida e isolada

da ulceração
dos dentes soltos pelas cotovias

                             fala do verso

inverso- branco

ou
livre-  dos  afetos


fala do casal de fetos enseados
no órfico dístico da gramá

tica

§


por claudio castoriadis
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* projeto literário

quinta-feira, 9 de julho de 2015

muquifo


um dia eu monto uma bicicleta e aprendo a andar sozinho
sem as mãos, com os olhos vendados de costas na garupa
libidinoso trajando peripécias assegurando minha epopeia 

um dia serei abduzido pelo tempo
desmaterializado numa galáxia muito distante
vou pedalar até disparar as mucosas do chão na velocidade do riacho
levitar o caminho cismado no meio da pedra onde a sociedade é um muquifo

de grão em dragão deixarei a poeira empinada confinada na matéria que repousa
quem sabe um rochedo salta da calçada e germina no meu ombro o primeiro alarde do dia


claudio castoriadis

quarta-feira, 8 de julho de 2015

vasilhas refrescadas molhando garrafinhas pets

o inverno nublou na sua mão

confinada no bolso

com a reborda

gelada

o inverno passou resfriado pros dedos na sua 

unha encharcada


segurando vasilhas refrescadas, protegendo-as 

com sua mão refrigerada

o inverno descongelou sua mão da minha 

molhando garrafinhas pets com lacinhos nublados




por claudio castoriadis



sexta-feira, 26 de junho de 2015

quisera ser de carne essa mente


sensação robusta de uma rapina
ruflando minha pele
acho graça
poderia ser melhor
na cerâmica não pisca uma gota
desacelero o tique do relógio
quisera ser de carne essa mente
neste canto, fieiras de tralhas metálicas a céu aberto
no outro, bactérias se fundem, parafusos, programas
placas mães                      malocas orgânicas
sombras nas marquises
aqui e ali
mágoas, parricídios
faixas, pedestres, táxis
sorrisos, parques
algazarra
etc



por claudio castoriadis
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domingo, 21 de junho de 2015

probabilidade de experimentos sublinhados


sábado, probabilidade de experimentos sublinhados, um resultado, feliz ou infeliz, que acrescenta marcadores de páginas por entre espaços poucos vistos. desses que não encontram em si, até segunda ordem, figuras ingênuas arrastando o luto de domingo como se segunda fosse diferente da imaginação porta-voz de um feriado, paciente e lento, que aos poucos conforma a mentalidade calçada de sandálias.

claudio castoriadis

sexta-feira, 19 de junho de 2015

pedacinhos de papel sulfite


eu não consigo escrever chorando

não consigo chorar 

em pedacinhos de papel sulfite

não consigo

ser alguém que rir de quem chora

por alguém escrevendo para alguém que

foi rindo de quem tanto escreveu chorando


por claudio castoriadis
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quarta-feira, 17 de junho de 2015

ontem você falou dormindo

ontem você falou dormindo
                você disse que
tomou minhas dores
                            tomou
de
volta e guardou às pressas
todos meus scraps
             meus caracteres
minhas mágoas
                grifadas
                         cada qual
&
um pouco mais
num canudinho fast food

-coração de isopor
não faço mais isso
disse você

como quem gorjeava, distraída
trollando com a voz do kenny
vacilando uma
                                   duas
ou até três
gargalhadas

dizendo

quadro de rabiscar palavras
                                 que
se rabiscam
no
                              quadro
rabiscado pela palavra
quadro

por claudio castoriadis


quinta-feira, 11 de junho de 2015

meysenbug


curiosamente um crupiê se inclinou sobre a tela e
lhe disse
aproveitando a verticalidade
q não era permitido pastiche naquele local
o mundo girava na sua voz
tecida de cores
em traçados desentendidos
e ela sabia
tinha ouvido antes
na noite que foste embora
que na alfaia havia um locus
sabia do alento
que se molhava do lado de dentro
sabia q seu nome bolorento alimentava-se da minha luz

por claudio Castoriadis
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terça-feira, 19 de maio de 2015

o último troiano




no seu colo derramou-se a geada
o estilhaço da regência
e pela narina da beleza
ilíada ensolarada
com sua crina
prefacial e
úmida
)servindo
de
proteção(
(i)
servindo de incêndio
(ii)
servindo de penacho
((iii))
servindo pela manhã

por claudio castoriadis
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quinta-feira, 7 de maio de 2015

sobre o velho escriba


seu tinteiro encharcado
não deriva de estopas
do mau cheiro
dos laudos
não deriva
da tessitura pisoteada
não há nele
uma naco obliterado
uma infâmia epidérmica
um enervante encefálico

claudio castoriadis
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