terça-feira, 1 de maio de 2012

NIETZSCHE: UMA COMPREENSÃO DA CULTURA DO OCIDENTE COMO SINTOMA DE DECADÊNCIA MORAL


1.3.   Custos negativos dos costumes


Conforme exposto, existe a íntima relação à margem do encanto de uma tradição em que um suposto bom costume se exterioriza, na maioria das vezes, de forma irreflexiva e submissa, mascarando um sentimento de medo. É tal a estratégia acerca da crítica dos costumes que Nietzsche coloca sob suspeita tudo o que é conhecido e cognoscível. Espontaneamente, o autor de Zaratustra nos convida a adentrarmos na dimensão da sua crítica quando instaura uma ampla discussão sobre o costume e assegura uma reflexão axiológica, analisando as possibilidades do conhecimento e a dimensão valorativa da consciência humana.
Costumes todos temos. Valores é o que nos diferem dos animais. Para conviver precisamos estabelecer uma série de valores. Cada conduta nossa em sociedade deve ser ponderada na medida do possível. Devemos decidir quais os valores que sustentaram nossas vidas. Porém o modo de conceber a realidade pelo prisma da moralidade, tal como Nietzsche apresenta, é negativo por rejeitar novas experiências. Desse modo, o grande problema do costume é quando este se encontra em sua forma estática; quando não existem possibilidades de novas práticas, novas experiências. O que, na verdade, Nietzsche tenta mostrar é que a vida refletida na individualidade do indivíduo não pode ser enclausurada; os sentimentos não devem ser os mesmos para todos. Com isso a moralidade embrutece os costumes debilitando toda e qualquer forma de avaliação.
Pois bem! Até aqui sabemos os custos negativos dos costumes. Sabemos também de que forma o mesmo exerce seu domínio e sabemos ainda o pilar principal que sustenta uma comunidade: o sentimento de medo.
Através de milhares de anos viu um perigo quando o rodeava, em tudo quanto o rodeava, em tudo quanto lhe era estranho, em tudo quanto estava vivo desde o momento em que semelhante espetáculo se oferecia a seus olhos, imitava os traços e a atitude que via ante si, e tirava uma conclusão sobre as intenções boas ou más que pudessem haver atrás daqueles traços e daquela atitude.  (Nietzsche, idem, p.107)
Observe-se que o sentimento de medo é pensado como um instrumento de compreensão. Tal prática de temor desde muito tempo serviu de sustento para a moral. O medo gera a adesão em um comportamento ordenado e submisso. Assim Nietzsche compreende o homem em sua fragilidade tão peculiar que, temendo o que lhe é estranho – o outro –, tira conclusões em pró de sua sobrevivência. Dentro dessa discussão identificamos dois pontos importantes (para nossa pesquisa): primeiro que o sentimento de medo é pensado como princípio articulador da moral, uma vez que o mesmo principia juízos e valorações e, segundo, o mesmo sentimento de medo tem seu caráter gregário. Afinal, os juízos e valorações remetem a um individuo que desenvolve sua sensibilidade e inteligência necessitando viver em sociedade.
O que dissemos até agora parece suficiente para proporcionar algumas afirmações fundamentais da crítica nietzschiana:
a)       A moral é tratada como condição de vida;
b)       A condição de vida é cultivada pelo sentimento de medo;
c)       O sentimento de medo serve de base para a moral de animal de rebanho.
Sabemos que a raiz do problema foi questionada: a formação da moral desde sua base na adoração pelo costume, cultivada pelo sentimento de medo. Porém, os homens não devem reprimir o medo e sim questionar a tradição. Enfim, qual postura assumir frente à moral reduzida e fortificada no tradicionalismo? Aquilo que efetivamente está em jogo nessa crítica consiste no convite em adotarmos uma postura de profunda desconfiança. Pois bem! Nietzsche tinha uma meta ao escrever Aurora. Pois o subtítulo de tal obra delimita sua pesquisa: fundamentar reflexões sobre preconceitos morais – a razão, a consciência, a boa opinião, amor ao próximo, Deus, virtude, justiça, pecado, o inferno, bem e mal. Preceitos expostos, desde sempre as piores análises.
Por quê? Ora Nietzsche responde que na presença da moral as reflexões são podadas por se tratar uma autoridade e na presença de uma autoridade o mais sensato durante muito tempo foi obedecer:
Desde que o mundo é mundo, nenhuma autoridade permitiu tornar-                se objeto de crítica; e chegar à crítica moral, ter por problemática a moral, como? Não foi sempre, não é ainda imoral? A moral, contudo não dispõe de toda classe de meios de intimidação para manter a distância as investigações críticas e os instrumentos de tortura; sua certeza repousa mais numa certa espécie de sedução que só ela conhece: sabe “entusiasmar”.  (Nietzsche, idem, p. 10).
 Considerando essas afirmações compreendemos que Nietzsche incessantemente nos conduz para uma crítica da estrutura da sociedade, visto que a mesma se mostra estabelecida no conjunto e tem como finalidade última a proteção dos indivíduos contra os perigos externos. A comunidade deve assim ser considerada um problema, pois para garantir sua permanência, afirma Nietzsche, ela busca um nivelamento de juízos. Nesse contexto, viver em comunidade significa abraçar o temor e desprezar qualquer postura que eleve o sujeito para um patamar além da comunidade. Ações individualistas que possam ameaçar a subsistência da comunidade são estigmatizados como imorais, de modo que tudo que infunde temor ao próximo é malquisto e denominado de mau.
Que fique claro: falar em moral mediante essas considerações é o mesmo que falar em uma condição de vida. E a condição criticada nesse momento é a condição de rebanho, um modo de pensar e viver que implicou na redução do homem à condição de animal doméstico, amansado e decadente. Portanto, o perigo que reside na comunidade é justamente quando ela está atrelada à moral de rebanho. Interessante notar que essa ligação do homem com a moral pela figura de animal de rebanho visa justamente personificar o moralista como uma ovelha frágil e decadente que desgarrada do seu rebanho (comunidade) e desconhece uma forma nobre de sobrevivência. Não consegue trazer para si a responsabilidade de viver a vida em suas mais notórias peculiaridades. Seja por má fé ou pelo sentimento de medo, ele cultua uma memória fraca que em nada lhe permite superar as amarguras, as desilusões, humilhações, as dores vividas, sempre amarrado a essas experiências. Salientando o temor na moral de rebanho, Nietzsche escreve:
O quanto de perigoso para a comunidade, para a igualdade, existe numa opinião, num estado, no afeto, numa vontade, num dom, passa a constituir a perspectiva moral: o temor é aqui novamente o pai da moral. (Nietzsche, 2006, p.88)
O animal de rebanho é, portanto, aquele incapaz de acolher e aceitar as imperfeições da vida. Ele desvia o olhar evitando o lado mais trágico da vida; está permanentemente buscando culpados por seus infortúnios; é fraco e carrega em sua alma o desejo de vingança. Dessa forma é incapaz de caminhar por seus próprios pés. Vive a esmo,  espera  um conforto vindo de fora, de um outro, concebido como Poderoso, Absoluto, quer seja a tradição ou uma comunidade. O temor para o animal de rebanho será sempre o pai da moral.

Por Claudio Castoriadis ( Franciclaudio Feliciano de Lima )

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