terça-feira, 31 de julho de 2012

NIETZSCHE : Otimismo teórico: crítica ao pensamento dicotômico


3.1.   Otimismo teórico: crítica ao pensamento dicotômico

O filósofo Sócrates é considerado não apenas por Nietzsche, mas por uma gama de intelectuais, como o primeiro sábio que desde a antiguidade se desvia dos estudos da física e da cosmologia para se dedicar exclusivamente às questões propriamente humanas. Nesse ponto, a novidade da análise nietzschiana consiste em sua nova compreensão do homem Sócrates: este, colocado como responsável por uma ruptura que abalou e abala ainda, de forma negativa, toda a nossa tradição filosófica e artística; sendo essa ruptura, segundo Nietzsche, o fim de um belo mundo e o início de um duvidoso iluminismo. Amante e profundo conhecedor da cultura grega, Nietzsche apontou a forte influência de Sócrates naquilo que ele denominou como sendo a decadência da arte grega. Vale lembrar que a questão da decadência artística grega está para Nietzsche correlacionada à questão geral da decadência humana. Em vez de confiar no corpo e nos instintos, colocando a razão em primeiro plano Sócrates faz dela a referência última da realidade do homem, o que consiste em reprimir a natureza, os sentidos e os instintos, ou seja, Sócrates, com sua forte influência, consegue transformar a decadência num modelo de humanidade.  Vejamos nessa passagem o princípio que nos leva a tocar com o dedo o coração e a medula da tendência socrática:
Enquanto em todos os homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora, e a consciência uma força crítica e negativa, em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora – é uma verdadeira monstruosidade (...) pensemos nas consequências das máximas socráticas: a virtude é um saber; só pecamos por ignorância; o homem virtuoso é feliz. Estas três formas essenciais do otimismo são a morte da tragédia. (2007c, p.13)
Pois bem! No final desse trecho Nietzsche denomina de otimismo o pensamento socrático. Com isso, temos um ponto importante para ser explorado com atenção a esse respeito: compreender o que Nietzsche entende por otimismo teórico. A esta altura podemos constatar uma visível recusa pela parte de Nietzsche contra qualquer hipótese da existência ou compreensão de uma realidade independente do nosso intelecto: “não podemos enxergar além de nossa esquina” (2001, p. 248). Nietzsche constatou que desde o filósofo Parmênides  a filosofia era atravessada pela busca da verdade. Os intelectuais tentavam decifrar o que eram as coisas em si mesmas. Sócrates, por sua vez, principiou o que Nietzsche denominou de otimismo teórico partindo da crença de que o homem pode conhecer o ser, ou até mesmo corrigir o ser. Basta enxergar pelo prisma da razão. Percebemos aqui que o papel no pensamento socrático é de suma importância, principalmente ao fundamentar a seguinte “equação socrática de razão = virtude = felicidade: a mais bizarra equação que existe, e que em especial, tem contra si os instintos dos helenos mais antigos” (2006, p. 19).
 Com isso, Nietzsche problematiza a primazia racionalista da civilização helênica alegando que o pensamento na época trágica dos gregos, com toda sua força criativa, peculiar em seus aspectos conflituosos, abraçava a vida em toda sua exuberância, ao contrário do mundo composto pelo otimismo socrático. “Com Sócrates – diz ele –, o gosto grego se altera em favor da dialética: o que acontece aí propriamente? Sobretudo um gosto nobre é vencido; com a dialética, a plebe se põe em cima (ibidem).
 Ou seja, o grande problema de Sócrates nada mais é do que seu sentimento racionalista do qual todos os filósofos após ele passaram a compartilhar: a vontade de verdade:
A vontade de verdade, que ainda nos fará correr não poucos riscos, a célebre veracidade que até agora todos os filósofos reverenciaram:  que questões essa vontade de verdade já não nos colocou! Estranhas, graves, discutíveis questões! Trata-se de uma longa história – mas não é como se apenas começasse? Que surpresa, se por fim nos tornamos desconfiados, perdemos a paciência, e impacientes nos afastamos? Se, com essa esfinge, também nós aprendemos a questionar? Quem, realmente, nos coloca questões? O que, em nós aspira realmente “à verdade”? (Nietzsche, 2005a, p. 9)
Ora, Sócrates indagava as pessoas acerca dos valores éticos, virtudes, o que eram essas coisas, de onde vinham, o que valiam os costumes, e, o que seriam a virtude e o bem. Paulatinamente investigava os costumes e valores vigentes, a origem e a essência das virtudes, o que significava uma conduta Boa ou Má, virtuosa ou viciosa, introduzindo então a ideia de consciência moral: considerando que bastava saber o que é bondade para que seja bom. Buscando definir o campo no qual valores e obrigações podem ser delineados, Sócrates teve o mérito de garimpar os valores éticos ou morais da coletividade cultuados de geração a geração, principiando então a ética ou filosofia moral.
Por outro lado cometeu um contrassenso quando cristalizou valores superiores em outro mundo:
Razão = virtude = felicidade significa tão só: é preciso imitar Sócrates e instaurar permanentemente, contra os desejos obscuros, uma luz divina diurna – a luz diurna da razão. É preciso ser prudente, claro, límpido a qualquer preço: toda concessão aos instintos, ao inconsciente, leva para baixo....  (Nietzsche, 2006, p. 22)
 Sócrates, nesse sentido, representa para Nietzsche a degenerescência da filosofia, justamente pela distinção de dois mundos. A figura do filósofo Sócrates deve ser vista nesse momento como referência da crítica de Nietsche para a metafisica. O objeto da crítica nietzschiana é-nos desvendado nessa nova roupagem do pensador Sócrates responsável pela dicotomia da metafisica. Uma passagem do livro Nietzsche: o Filósofo da Suspeita, de Scarlett Marton, reforça bem essa ideia: Traço essencial de nossa cultura, o dualismo de mundos foi invenção do pensar metafísico e a fabulação da religião cristã. Com Sócrates, teve início a ruptura da unidade entre homem e mundo (Marton, op. cit., p. 80).
Com isso chegamos a um dos focos da proposta de Nietzsche: a superação da metafísica. Dito de outro modo, o equilíbrio, a elegância, o racionalismo e a harmonia da cultura tiveram como base a metafísica proposta pelo Sócrates: uma metafisica fundamentada por um pensamento dicotômico, enraizado na oposição de valores, tendo como referência os valores superiores – o divino, o verdadeiro, o belo, o bem. Nesse contexto, para Nietzsche, em Sócrates é palpável à morte da cultura e da civilização gregas. Ou seja, com Sócrates o homem trágico é substituído pelo homem teórico. Daí a crítica de Nietzsche acerca do otimismo teórico.  De acordo com essa ordem de raciocínio o antigo mundo com sua gloriosa sabedoria desmorona com o advento do homem teórico:
Quem se der conta com clareza de como depois de Sócrates, o mistagogo da ciência, uma escola de filósofos sucede a outra, qual onda após onda, de como uma universalidade jamais pressentida de avidez de saber, no mais remoto âmbito do mundo civilizado, e enquanto efetivo dever para com todo homem altamente capacitado, conduziu a ciência ao alto-mar, de onde nunca mais, desde então, ela pôde ser inteiramente afugentada, de como através dessa universalidade uma rede conjunta de pensamentos é estendida pela primeira vez sobre o conjunto do globo terráqueo, com vistas mesmo ao estabelecimento de leis para todo um sistema solar; quem tiver tudo isso presente, junto com a assombrosamente alta pirâmide do saber hodierno, não poderá deixar de enxergar em Sócrates um ponto de inflexão e um vértice da assim chamada história universal se substituindo uma à outra como as ondas, como a ânsia de saber se expandindo nos países mais longínquos com uma universidade (Nietzsche, 2007c, p. 91-92).
Nessa passagem o que Nietzsche está afirmando é que todas as escolas filosóficas são diretamente dependentes da revolução socrática. Que o discurso metafísico tenha conseguido produzir sabedoria válida, ciência e experiência do mundo isso é inquestionável. Porém, sem perder de vista a análise da vida, do corpo e os instintos vitais, Nietzsche compreendeu que tudo que até o momento denominou-se ética vigorou-se pelo contágio absurdo e insidioso do imaculado conhecimento. Um fanatismo pela razão que no campo da arte causou a morte da tragédia e no domínio filosófico debilitou a sabedoria dos grandes filósofos. A razão, faculdade única que conduz ao conhecimento mais profundo, ao âmago das coisas.
No socratismo nos deparamos com a ilusão de chegar à conclusão das conclusões enveredados por conceitos e combinações lógicas desprezando as potências místicas e artísticas por não corresponderem aos critérios da razão. Nesse contexto, não há lugar para um discurso que não respeite a frieza e veracidade do racionalismo. Com isso, recusando categoricamente o otimismo teórico de Sócrates e todo o ditame clássico da tradição que sempre tratou a vida em um dualismo racionalista, Nietzsche argumenta que o pensamento grandioso dos filósofos anteriores à influência racionalista socrática é o mais elevado alcançado pelo homem. Rica em pensadores que compreenderam a natureza, a época trágica representada nos dramas de Ésquilo, Sófocles e Eurípides é a corporficação suprema da tensão harmônica dos contrários, expressão de um mundo compreendido pela natureza como princípio dionisíaco: a vida com toda sua exuberância. Sobre essa questão comenta o professor Osvaldo Giacoia:
É nesse sentido que os gregos do período trágico seriam exemplares. Eles pressentiram e vivenciaram de modo exacerbado as atrocidades da existência e as ‘dores do mundo’, sem necessidade de subterfúgios moralistas. Prova disso é a ferocidade de que dão mostras os combates entre as cidades-estados, assim como as agruras materiais e espirituais que estavam na base do florescimento da cultura grega. (2000, p. 18)



Nietzsche

 Uma Compreensão da Cultura do Ocidente

Como Sintoma de Decadência Moral


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Sobre o Autor:
Claudio Castoriaids Claudio Castoriadis é Professor e blogueiro. Formado em Filosofia pela UERN. Criador do [ Blog Claudio Castoriadis ] Tem se destacado como crítico literário.Seu interesse é passar o máximo de conhecimento acerca da cultura >

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